Paradoxos

Amor nunca é fácil ou sereno.
Amor é dureza e construção,
é ardência dorida e pulsão,
é luta que se ganha perdendo.

Amor é experiência e aceitação,
é divisar o sublime na miudeza,
ver o certo na pura incerteza,
é reconhecer a luz na escuridão.

Amor é vida, caminho e terreno,
é o ímpeto da moral e do prazer,
é querer mais e mais não querer

é dar-se imaculado ao veneno
da morte da razão vil e plena…
que tudo cega, mas vale a pena.

Periféricos

A luz portátil
do teto invisível
carrega o pedágio
do mundo possível.
É tudo periférico
O mundo e seu além
A vida e seu desdém
O não(-vida) patético
Sejamos a periferia
a noite inacabada
das noites desabitadas
das ruínas da periferia
de si mesmos;
De quando rastejar
por entre as pedras
é a única forma
de sobreviver ao descaminho
do caminho inexistente
ao não-caminho de tudo.
Ontem
tudo acabou, e nada
vai reconstruir
os escombros.
A sombra de uma nova
dor nasce todo dia,
e só desejamos que não
e desejar nunca
Nunca foi suficiente
é preciso estar
entre cada pedra
e abrir o caminho
para que outros
Possam construir!

Saudade

Já tive muita saudade,
de coisas que não vivi,
da minha curta mocidade.

Saudade de onde cresci,
e onde nascia a verdade.
Saudade de quando renasci
após morrer de piedade.

Já tive demasiada emoção,
das longas noites infindas
aos longos infernos do cão.

E tenho saudades (divinas
saudades) do tempo-ilusão
do tempo-pecado; rotinas
do tempo-saudade&paixão!